Família Trecenti

Da difícil vida no norte da Itália para o sonho de melhores dias no Brasil, conheça o passado da família que originou o Grupo Lwart

A história da família Trecenti começa em alguma década do século 19 na pequena comunidade de Isola Dovarese, uma cidadezinha italiana localizada a 25 km de Cremona, capital da província do mesmo nome, na região conhecida como Lombardia. Foi nessa terra do norte da Itália que o garoto Luiggi, órfão de pai e mãe, começou a construir a trajetória da sua vida em um orfanato, onde era conhecido pelo número de sua matrícula na entidade: trecenti (em português, três centos ou trezentos).

Em sua terra natal, Cremona, grandes nomes da cultura italiana tiveram destaques em épocas passadas, entre os quais Antonio Giacomo Stradivari (mais conhecido pelo nome em latim Antonius Stradivarius), célebre luthierprofissional especializado na construção e no reparo de instrumentos de corda – que ganhou fama pelo mundo devido à qualidade dos instrumentos que fabricava. Também é famosa por Monteverdi, maestro e compositor de óperas.

Lugar de famosos, mas também de gente humilde e trabalhadora que buscava a realização de seus sonhos. Com Luiggi não era diferente. Ao sair do orfanato de Isola Dovarese não apagou de sua pequena história de vida o nome pelo qual era chamado e conhecido: trecenti. Com orgulho, o adotou de vez e passou a se chamar Luiggi Trecenti. Foi assim que a história da família registrou pela primeira vez o sobrenome, agora com “t” maiúsculo.

Tempos difíceis

Naquela época, a Itália vivia uma crise econômica que afetava diretamente seus habitantes, principalmente aqueles que dependiam da lavoura para a sobrevivência. Foi nesse momento de vida difícil que Luiggi conheceu Margarida, com quem se casou e teve três filhos: Rosina, Celso e Cezar, este último nascido em 1868.

Do outro lado do Oceano Atlântico, nessa mesma época, o Brasil vivia momentos conturbados pelo fim da escravatura. Em 1888, a Princesa Isabel assina a lei que pôs fim ao sistema de escravidão no País, obrigando os fazendeiros a “importar” mão de obra da Europa, que vivia tempos difíceis, para atender a demanda das plantações de café. Luiggi, a esposa Margarida e os filhos Rosina, Celso e Cezar – este já casado com Apalice -, animaram-se em trocar a Itália pelo Brasil, em busca de melhores condições de vida.

A data de desembarque da família Trecenti no Brasil é incerta, mas calcula-se que eles pisaram em solo verde e amarelo entre 1896 e 1897, provavelmente no porto de Santos (SP), tradicional caminho dos imigrantes italianos no País. Infelizmente, os membros da família foram separados. Cezar e Apalice Trecenti vieram para Lençóis Paulista, cidade do interior do estado de São Paulo.

Café, só no bule!

Diferentemente dos demais compatriotas que chegavam ao Brasil aos milhares para trabalhar nas lavouras de café, Cezar e Apalice iniciaram suas vidas em Lençóis Paulista livres de compromissos com fazendeiros. Com as economias que trouxeram da Itália, eles investiram em outras opções de trabalho, sempre focados no próprio negócio.

Em fase de adaptação no novo País, Cezar vislumbra que poderia ganhar um bom dinheiro com o transporte e comércio de madeiras entre Lençóis Paulista e o porto Lençóes, em Macatuba, às margens do rio Tietê. Comprou uma carroça e deste meio de transporte herdou seu apelido: “Cezar Carroça”.

Neste ano, nasce Emília, a primeira brasileira nata da família Trecenti, filha do casal Carlos, o caçula de Cezar e Apalice, e Maria Guedes. Desta união nascem ainda outros cinco filhos: Luiz (1926), Wilson (1929), Adélia (1931), Alberto (1932) e Renato (1934). Todos trazidos ao mundo pela mesma parteira.

Já com a vida adaptada ao Brasil, o casal Cezar e Apalice sofre um trauma: o primeiro filho, Luiz, morre precocemente aos 29 anos, deixando a mulher e filhos ainda pequenos. Mas a vida segue com a resignação das surpresas pregadas pelo destino. Eles continuam trabalhando duro para sustentar a família, agora um pouco maior com o casamento do filho caçula Carlos com Maria.

Após mais de três décadas trabalhando com sua carroça, Cezar, pai de Carlos, morre em 1936 aos 68 anos de idade. Sua querida Apalice, com quem teve a coragem de deixar a Itália e vir para o Brasil em busca de novos desafios, morre em 1948, aos 83 anos. Carlos, o único filho sobrevivente, herda dos pais poucos bens materiais, mas a vontade de vencer na vida é o legado da família Trecenti que continuou correndo em suas veias.

Carlos e Maria Trecenti mantiveram acesa a chama do casal Cezar e Apalice: trabalhar duro para dar um futuro melhor para os filhos. Ele foi pedreiro e também atuou como comerciante de madeira e de gado. “Fiz muitas viagens em cima de cavalo levando boiada de Lençóis Paulista para Avaí. Dormíamos embaixo de bambuzais. Passávamos por Bauru, onde hoje é a avenida Nações Unidas. A volta era de trem. Subíamos os cavalos nas ‘gaiolas’ vazias [vagões de trem para transporte de gado], amarrávamos as redes, vínhamos dormindo e descíamos em Lençóis”, conta Alberto Trecenti, um de seus filhos.

Carlos e Maria levavam uma vida simples, com muita honestidade e trabalho. Enquanto Carlos cuidava dos negócios, Maria complementava a renda da família fazendo linguiças e queijos para vender. “Ela era uma mulher de muita fibra e deu suporte para a formação da família por meio de uma boa educação. Filha de caboclos, casou com um descendente de italiano. O sogro e a sogra [Cezar e Apalice] só falavam italiano dentro de casa. E ela aprendeu a falar italiano muito bem”, lembra Renato.

Preocupado com o futuro dos filhos, Carlos confia a um amigo de Macatuba o encaminhamento profissional dos filhos Luiz e Alberto. Em 1948, eles foram morar em Palmital (SP) para montar uma oficina de consertos diversos

Três anos depois, eles decidem retornar a Lençóis Paulista para, juntos com os irmãos Wilson e Renato e com o apoio do pai, iniciarem um negócio que não existia na cidade: uma serralheria para confecção de vitrôs, janelas, portas e parafusos, entre outros materiais, que ganhou o nome de Trecenti Indústria e Comércio. Mais tarde eles também passaram a fornecer materiais para a construção das destilarias de açúcar e álcool da região de Lençóis Paulista, produzindo equipamentos agrícolas, como carrocerias e carretas para transporte de cana de açúcar.

Com os filhos bem encaminhados na vida profissional, Carlos continuou com sua vida de comerciante. Em 1958, ele morre aos 58 anos de idade, deixando a mulher, Maria, e os seis filhos.

A Trecenti Indústria e Comércio fabricava apenas sob medida e não tinha estrutura para desenvolver produção em série. No entanto, entre os irmãos já havia o sonho de fabricar um produto em escala que fosse vendido com a marca própria. O mais velho, Luiz, já mencionava até mesmo a ideia de criar uma marca com as iniciais dos nomes dos irmãos. Por isso, começaram a pensar na fabricação de parafusos estampados com a marca LW. Era o nascimento da marca Lwart.

O negócio chegou a empregar 70 funcionários. A oficina funcionava 24h por dia. Sempre usando da criatividade, os irmãos Trecenti inventaram um equipamento para gerar produzir energia alternativa – adaptaram uma transmissão em um pequeno trator -, cujo funcionamento gerava a energia necessária para alimentar toda a Trecenti Indústria e Comércio.

Crescimento acelerado, a empresa vira referência em Lençóis Paulista e fica conhecida como “escola industrial”, na qual os jovens da cidade aprendiam o ofício e ajudavam financeiramente suas famílias. “O negócio foi crescendo e passamos a fazer também equipamentos para atender parques de diversões, como roda-gigante, balanços, trenzinhos, tobogãs. Fazíamos tudo sob encomenda”, explica Alberto.

Os irmãos abriram um comércio de ferragens e materiais de construção, a Ferragens São Carlos, batizada com este nome em homenagem ao pai, Carlos Trecenti. A loja existe até hoje em Lençóis Paulista, mas não pertence mais a família Trecenti.

Morre Luiz Trecenti, o primogênito do casal Carlos e Apalice. Seu filho, Luiz Carlos Trecenti, começa a trabalhar com os tios Wilson, Alberto e Renato.

A evolução dos negócios fez com que os irmãos explorassem um novo negócio: uma relaminação de ferro. Passaram a produzir vergalhões para construções, estruturas metálicas e equipamentos agrícolas como plantadeiras e correntões projetados na própria empresa. Com crescimento da demanda na indústria, os Trecenti já atendiam clientes em outros estados do País.

E foi numa viagem de negócios, em Goiânia, que Renato soube que recuperava-se óleo usado em motores. Analisou o negócio e sugeriu aos irmãos a instalação de uma indústria de rerrefino de óleos lubrificantes usados, que deu origem à Lwart Lubrificantes, empresa do Grupo que coleta e rerrefina óleos lubrificantes usados.

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